DEUSES NA LINHA DO TEMPO

O HOMEM RELIGIOSO NA LINHA DO TEMPO 

OSIRIS

 

Os deuses esquecidos.

Já se afirmou que a religião foi, e ainda é, fruto da astúcia agindo sobre a ignorância que impede pessoas da raciocinar logicamente tornando-se presa da superstição. A religiosidade é produto do medo, da crença ou temor em fenômenos inexplicáveis e está latente em todo ser humano, independentemente de cultura, de inteligência, de conhecimento e acontece por uma necessidade natural, num conjunto que conduz o indivíduo à crença em um Deus.

A crença num Deus é inata ao ser humano e isto está comprovado nos registros escritos desde a remota antiguidade. Civilizações antigas mostram seus deuses em todo o planeta. Os Egípcios antigos se mostram como num ápice de uma pirâmide que eles tão bem construíram. A América do Sul é riquíssima em religiões antigas, em construções que nos assustam não só pelo colosso, mas, em especial pela ligação com seus deuses, muitos já mortos na linha do tempo. A compreensão do homem sobre divindades acabaram por sepultar a grande maioria delas e extensa lista hoje ocupa lugares nas lendas do planeta.

Os deuses, criados pelo homem à sua imagem (e às vezes distorcidas pelo antropomorfismo) apresentavam as mesmas necessidades, virtudes e  fraquezas humanas, e tal como os homens eram dotados de ciúmes, cólera, amor carnal e serviam aos homens com algo em troca num comércio tão antigo como o próprio homem e que hoje se repete com orações, promessas e uma enorme gama de toma-la-dá-cá religioso.  Ouro fator natural dos deuses, ou qualidade, era a vingança. O prometido, senão cumprido, representava castigos de enormes proporções. Hoje, ainda, há quem tenha medo de quebrar uma corrente recebida pelo correio por medo das represálias ali inseridas. As orações eram e ainda são laudatórias, exaltando a qualidade e poder do deus ( ou santo) numa espécie de mercado de trocas, onde, caso atendida a promessa, a retribuição será certa e cumprida à risca, como se o deus ou santo precisasse daquele ‘bem’ ou oferta. Capelas e igrejas foram e são assim construídas por todo o planeta.

A ascendente marcha da civilização colocou por terra um exército de deuses, e um dos pilares desta luta foi a Filosofia. Por meio deste ramo da inteligência humana foi possível o homem se distanciar daqueles deuses, em vários sentidos, apesar de que muitos ramos foram apenas substituídos, tal como fizeram os Jesuítas no Brasil e no mundo. Divindades foram reformuladas e algumas conseguiram ‘escapar’ destas mudanças, se travestindo em vários aspectos e continuam ocupando altares, mesmo que com hierarquias menores.

Religiões antigas do planeta desapareceram na poeira dos séculos. Era úteis e necessárias em determinados períodos ou conforme a cultura daquele povo ou daquela comunidade. Mudaram os tempos, os costumes e as religiões ou se transmudaram ou desapareceram. O antropomorfismo se incorporou a várias religiões, em praticamente todas, numa espécie de herança das religiões mais antigas. Deuses eram verdadeiros tiranos e por isso, bajulados e com esta bajulação através de oferendas e  sacrifícios até humanos, buscava-se aplacar a ira dos deuses e se conquistava a paz, mas para isto, criou-se uma categoria mais ‘elevada’, resumida na palavra sacerdote, que eram os mais próximos dos deuses ou que conheciam melhor as divindades e sabiam como conseguir seus benefícios e proteção. Daí para as igrejas foi um pulo.

Entre os deuses e figuras antigas e esquecidas estão alguns que apresentam uma similitude enorme com as referências a Jesus. As histórias e lendas, ao sabor do tempo, mudam de época, mas, apresentam a mesma roupagem dada pelas religiões mais modernas. Buda, que viveu no ano 563 a.C, tem uma linha bem próxima da historia de Jesus, sob vários aspectos; Mithra, dizem as lendas, viveu em 2.000 a.C e  representava o deus Sol, no panteão indiano. Teve nascimento assemelhado ao de Jesus, teve 12 seguidores, morreu em benefício dos semelhantes, usava a água como forma de batismo; Hórus viveu em 3.100 a.C, era o deus dos céus. Teve vida assemelhada à contada sobre Jesus; Osiris, egípcio, que viveu em 3.100 a.C, morreu, ressuscitou em 3 dias que segundo afirmam esteve no inferno, teve 12 apóstolos, usou a água como batismo e realizou alguns milagres; Krishna – vivei em 3.000 a.C, pertencendo ao panteão hindu, tem vida bem próxima à de Jesus. Observa-se que as histórias antigas, muitas delas, foram substituídas pelas mais modernas, mas, preservou-se a base comum, mostrando a transmissão das tradições ao longo da linha eterna do tempo.

A história de Noé é repetida em várias épocas da história humana e não é exclusividade do gênesis bíblico. Da mesma forma o Gênesis não é exclusividade da Bíblia cristã, sendo repetido no Torá, no Talmude e outros livros ditos sagrados.

 

fé

O  HOMEM CRIA SEUS CULTOS

A concretização de suas necessidades.

O papel mais importante das religiões ditas mais modernas foi transformar o poder vingativo dos deuses antigos e principais em um processo de perdão, fraternidade e amor entre seus membros e a população que alcançava. O Judaísmo foi e é, por excelência, cultor do antropomorfismo. A ira divina antiga foi transformada por força do surgimento de novas linhas de ação. O cristianismo substituiu o olho por olho e dente por dente em amor ao próximo. O ‘tirano’ reinante no meio dos deuses agora era representante da bondade personificada e de um ‘deus’ disposto a perdoar as faltas de seus filhos amantíssimos. Esta ‘revelação’ tomou conta do mundo moderno em termos religiosos. O temor a Deus agora era ( e é )  o amor personificado e concreto.

            O cristianismo alçou voo e, na Índia, onde o Budismo é religião dominante, a questão das castas foi ferida mortalmente, cuja base é cruel e vingativa, onde um indivíduo é condenado, antes que nascido a uma escravidão que dura por toda sua vida e por toda sua descendência e ascendência. Ainda hoje a Bíblia exalta as grandes batalhas de seus grandes heróis, onde tipos como um simples condutor de ovelhas ‘mata’ um gigante com uma pedra e se torna rei. Nada diferente dos bárbaros onde Odin reinava solenemente em seus tempos chamados “bárbaros

            O homem primitivo tinha, de um lado, imensas florestas cheias de animais de todo tipo, ferozes e invencíveis diante da debilidade física do ser humano que tinha de criar e construir ‘armas’ para poder enfrentar todo este tipo de ataque, onde ele, era o alimento e a própria sobre vivência dos outros animais; de outro, a própria Terra com seus vulcões, desertos, secas implacáveis, chuvas torrenciais e o céu ‘vomitando’ fogo com seus raios e assustando os homens com seus trovões, foi obrigado a criar, com sua mente privilegiada em enxergar  o passado, o presente e arriscar um futuro, uma força sobrenatural que viesse complementar sua fraqueza e fragilidade frente ao mundo hostil que conhecia.

            O homem precisou (e precisa) de forças superiores a tudo isso e complementares ao que conhecia e desconhecia, e à medida que caminhava sobre a terra, deuses foram sendo criados conforme suas necessidades mediatas e imediatas. Criou símbolos que se tornaram seus talismãs, seus protetores, e com eles ergueu a fronte e olhou distante o infinito e, com estas proteções invisíveis, se tornou forte e capaz de sobreviver às constantes ameaças do meio e do próprio céu que desconhecia, mas,  respeitava, onde o brilho das estrelas eram seus deuses personificados e concretizados que nas longas noites de vigília eram como que fontes de energia para sua luta constante. Esta sua fé o transformou e, como sempre, dotou o próprio homem da certeza de sua divindade e que ele não era apenas um animal, mas um reflexo do próprio Criador que ele, desde sempre, acreditou existir. A Filosofia nos diz que o homem não é a imagem e semelhança de Deus fisicamente, e sim intelectualmente.

            Esta concepção era confusa a princípio, mas a religiosidade foi sempre aprimorada, expurgando-se os elementos contraditórios e inerentes a um deus que ele criara, e, com estes expurgos, pode enxergar uma divindade maior que o conduzia e o conduz a um princípio criador único. Essa ‘vontade e necessidade’ de um Deus, e não apenas divindades passageiras e próprias das lacunas que o ser humano tem em sua estrutura interna e externa sempre existiu e continua a existir, e cada vez mais enganado com as ações dos falsos profetas e exploradores da fé e da religiosidade natural do homem.  Um simples raio, um trovão, um corisco o deixava apavorado dentro de sua caverna e depois nos luxuosos condomínios ou favelas, ou como se diz atualmente, comunidades.

            O fator que envolve os funerais da pessoa morta sofreu e sofre intensa e constante modificação no perpassar dos anos e dos séculos. O local do sepultamento se torna em algo sagrado. Não importava ao homem antigo se o morto havia ou não sido perfeito em suas ações. Morto, era considerado um semideus que agora adquiria elevados poderes sobre os vivos, daí as variadas e constantes formas de excepcional respeito. A volta do corpo ao seio da terra era e ainda é um fenômeno que assusta e atrai o homem, mesmo dos mais simples intelectualmente falando ao mais graduado. Uma visita a um cemitério causa nas pessoas mudez e aflição. Quanto menos tempo ali permanecer, melhor. Por que será ?

A GENEALOGIA DE DEUS E DEUSES

O sobrenatural.

                O homem é inteligente. Seu cérebro não é enorme, mas um dos maiores entre os seres vivos atuais, embora já tenha ficado provado que o tamanho do cérebro não leva necessariamente a uma inteligência maior ou menor.  A energia que um cérebro utiliza é potencialmente elevada. A força do pensamento humano é um fato inconteste e hoje é estudada por várias modalidades científicas, em especial a Psicologia Experimental, já antiga e em evidência sempre. Muitas vezes a consequência desta ‘ força ‘ é chamada de milagre. A literatura sobre este assunto é vasta e claro está que o pensamento é uma força ‘material’ capaz da realização de muitos prodígios. Ressalte-se que crer e acreditar são duas coisas totalmente diferentes.  Quem acredita, ouve, lê e releva. Quem crê, não tem dúvidas. A esta fé, este pensamento forte e impregnatório, a Ciênca chama de Pensamento-forma. A fé contagia.

            O passar dos séculos fez daquele sentimento primitivo, puro, infantil ate e natural do medo e do respeito pela Natureza em fanatismo que transformou o antigo ser num depositário de crendices e atribuindo a si próprio o poder sobre o natural e, por conseguinte, sobre seus pares fazendo nascer uma hierarquia que cresce, dia a dia, tornando as religiões antigas em verdadeiras indústrias da fé e do dinheiro, como contrapartida pelos ‘serviços prestados’, onde tudo se alicerça na culpa, no perdão e no castigo. Os antigos feiticeiros se tornaram em sacerdotes e estes em representantes direto dos deuses e alguns até, dizem, de Deus. Representavam o poder divino e o temporal. O homem divinizou os elementos e a si próprio e passou a eleger entre os que se foram como “santos”, mártires e protetores naturais dos que aqui ficaram. Seus deuses continuam a habitar suas planícies sagradas, seus nirvanas, seus céus.

            O bem e o mal são eternos parceiros do homem e de suas crenças. Para se ter uma boa colheita, uma boa caça, uma boa pesca, básicos da humanidade primitiva, oferecia-se aos deuses próprios de cada produto, oferendas como que querendo corromper os deuses a serem ‘bonzinhos’ e, caso fossem, teriam mais. Para isso era preciso um ‘condutor, um interprete’ e nasceram os pajés, os feiticeiros e os sacerdotes. À medida que as coisas aconteciam ou não aconteciam se multiplicaram os deuses e, por conseguinte, as oferendas e os representantes divinos. Quando o homem começou a pensar em si mesmo e em seu futuro após a morte, foram criados os sacrifícios humanos, já que era comum o sacrifício de animais em troca ou agradecimento pelo aumento de seus rebanhos e de animais de  caça livre. Os primeiros sacrifícios humanos foram prisioneiros de guerra, de tribos ou grupos ameaçadores, e que, sacrificados a um determinado deus, faria com que os inimigos não mais fossem vistos como ameaça. Às vezes comiam o próprio inimigo buscando auferir de suas carnes o vigor que a vítima tinha e era invejada pelos demais. Fustel de Coulanges, em sua majestosa obra “A Cidade Antiga” se constitui numa das mais belas obras sobre a civilização antiga em termos de crenças, costumes  e religiosidade.

            A instituição das divindades obedecia um padrão básico em todos os povos da antiguidade. Aos bons, eram feitas oferendas e cultos para que continuassem a prover o homem de suas necessidades; aos maus, oferecia oferendas e cultos para que deixassem o homem e sua família e clã em paz e não os molestassem em suas duras vidas terrestres. Em pouco tempo, tribos, aldeias e povos tinham imensas quantidades de deuses e para representa-los foram criados os totens que eram os próprios ascendentes dos fundadores dos clãs representados fisicamente em troncos de madeira, origem natural dos elementos. Os membros dos clãs eram parentes entre si ou assim se consideravam e quando nascia uma criança já ficava definido seu nome cujo ‘ padrinho’ espiritual seria seu protetor por toda a vida e condutor para os campos gloriosos após a morte.

            O sangue sempre foi o elo entre membros de uma família, de um clã. O Cordeiro de Deus que derramou seu sangue em favor de todos, transformando a todos em irmãos, nasceu deste tipo de respeito e veneração pelo sangue. A ideia de um só Deus é universal. Judeus, Muçulmanos, Budistas, Cristãos, Indus e outros povos seguiram regras próprias e entre os judeus surgiu a expressão “ Jeova Sanctus Unus” Jeová é o Deus único. A expressão Jeova indica um conjunto de letras representando o Deus Único, cujo nome é impronunciável.

OS DEUSES E A EXISTÊNCIA DO UNO .

A ideia do Deus único.

            Os sacrifícios humanos alcançaram o ápice da obediência e submissão aos deuses da época pré-histórica na Europa, no mundo asiático e ameríndio.  Quando as oferendas humanas indicavam insuficiência para agradar e aplacar a ira dos deuses, ofereciam escravos e até membros do próprio clã, em especial jovens, já que a juventude era fonte de energia e isto deveria agradar aos deuses. Os deuses bárbaros eram maus e o sangue era exigido, e de forma constante. A ideia do sacrifício agradava aos próprios sacrificados que eram levados a pensar que o papel deles era importante e que estava ajudando à comunidade a ser feliz e felizes seus membros. Este tipo de ação vimos nos tempos bíblicos e já na época do surgimento do cristianismo onde, mártires, se ofereciam para o clã como forma de ajuda e, claro, seriam aquinhoados com a felicidade nos verdes campos da espiritualidade. Jovens Astecas na américa central  se ofereciam a tais sacrifícios. Iguais comportamentos adotaram os Maias e o Incas. Hoje, homens-bombas ocupam os lugares de ontem.

Tupã, entre os ameríndios, era o deus supremo. Os sacerdotes chegados ao novo mundo exigiram a substituição de Tupã por Cristo. A reação contrária foi clara e retumbante, alegando os gentios que se o Deus dos brancos não foi capaz de salvar o próprio filho da crucificação, Ele não tinha poder de ser um Deus. No mundo antigo e bíblico, Moises se destacou como o grande coordenador da nacionalidade judaica e lançou os germes do fanatismo religioso apresentando como Deus Supremo Jeová e o transformou em um Deus nacional, elegendo o povo judeu, o israelita, como o escolhido por Deus para governar a Terra. Os demais teriam de ser exterminados, e assim se começou interminável luta que até hoje alcança grande parte do mundo acima do Equador.

No mundo antigo deuses eram substituídos conforme o tempo e a necessidade política reinante. Os governantes, porem, agiam de forma sorrateira não destruindo totalmente os deuses e religiões dos povos vencidos. O próprio templo de Jerusalém foi alvo deste trabalho militar e político. Roma determinou que o templo deveria ser preservado porque sabia serem os judeus viam na construção alicerces de sua história que remontava já muitos séculos. O Imperador Tito usou a construção para manter os judeus sob seu controle e sabia que uma revolta deles destruiria seu poder. Roma permitiu a presença de muitas sinagogas e não queria uma guerra religiosa. O Império reverenciava todos cultos de seus vassalos, temendo sua força.  O mesmo se deu na Índia onde todas as religiões eram reverenciadas e toleradas.

O espírito de tolerância religiosa não era exceção e sim uma regra de forma a manter o domínio obre os povos submetidos politica e geograficamente a um soberano externo. Assim agiam os líderes aborígenes da América com respeito a todas as divindades e costumes. O mesmo não se deu com os europeus que agiram com intolerância e fanatismo abertos e perseguidores com relação aos contrários às suas crenças e divindades e mesmo Deus. Homéricas lutas já aconteceram e continuam a acontecer em nome de Deus e pela preservação dos costumes. Mercenários sempre ocuparam espaços nestas lutas onde, o deus maior era o dinheiro.

Foi insignificante o número de verdadeiros evangelizadores que aportaram as américas com o intuito real de pregar o Evangelho. A maioria quase absoluta alegava um saneamento moral e não tinha o menor espírito cristão como fundamento de suas ações. Esta luta entre os gentios e os sacerdotes gerou um sentimento que se tornou num fermento de revoltas, visto que ficava claro, diante das atrocidades cometidas, que o Deus dos cristãos era o mais perverso dos deuses.

Os aborígenes, por outro lado, receberam os conquistadores de forma pacífica. Não reagiram com violência e entendiam que os ‘ visitantes’ eram deuses que vieram para lhes ajudar, quando na verdade, a extrema maioria deles, objetivava agir em busca de metais preciosos e na escravidão dos silvícolas que não conheciam a violência como arma de conquista e sim nalguns casos em defesa da mãe-natureza que eles respeitavam e se propunham a defender sempre. Os objetos de cultos dos ameríndios eram confeccionados artisticamente em ouro e pedras preciosas que causaram a morte de milhares de membros dos clãs e até a aniquilação do próprio grupo.  O Deus civilizado foi imposto de forma violenta e aniquilados os deuses e tradições dos povos ameríndios e a guerra religiosa, sangrenta e violenta, se instalou em vasta região, inclusive no Brasil. Depredações seguiram a tais desmandos e grandes patrimônios imobiliários e literários se perderam na linha da história. Ruíram ou foram semidestruídos os templos e derrubados de seus pedestais os deuses de cada clã. O demônio da rivalidade e do poder ofusca toda e qualquer iniciativa de considerar o homem como um ser racional.

 

EGITO - PIRÂMIDE AO POR DO SOL....

OS DEUSES DO PASSADO  E A VIDA.

A mãe-virgem.

Os indianos, por meio de concepções voltadas para a cosmologia e o antropomorfismo, se destacam entre os demais povos do planeta, dentre os mais ricos e complexos. As religiões antigas eram todas voltadas para dois princípios básicos: o elemento masculino e o feminino. Esta abrangência era geral, mesmo nos tempos historicamente remotos. O fato não era visto e observado apenas nos meios animais e sim também nos meios vegetais e minerais. Grandes inteligências do passado, como por exemplo Hermes Trimegisto, tratava da dupla inseparável e elevava a ambos como fatores divinos e nascidos da própria natureza da vida.

O hermafroditismo é uma ação da natureza objetivando a continuidade da vida onde, num só ser, se instalam a parte masculina e a feminina. A grande maioria dos vegetais assim é. A flor tem as duas partes formando o androginóforo e com isto se alcança a certeza da continuidade da vida. Gineceu é a parte feminina e androceu é a parte masculina. Isto a natureza fez com a certeza de que os vegetais não se locomovem em busca de parceiros e por isto juntou os dois elementos de forma a garantir a perpetuidade da vida. Somou-se a isto o fator polinização pelos insetos, vento, animais, etc. À medida que a vida dominou o planeta, surgiram os animais, dotados de sexos separados em razão da locomoção facilitada. Deste entendimento hermafrodítico surgiu a ideia religiosa da virgem-mãe.

A mãe, a flor, não pratica sexo e ainda assim gera descendência. Desta ideia inúmeras religiões, inclusive a cristã, criou seus entendimentos relacionados à mãe-virgem e estabeleceu dogmas neste sentido. A divinização da mulher – mãe-virgem – remonta séculos na linha do tempo e há registros pré-históricos destes conceitos e que se perdem na poeira da História. O interessante é que a ideia antropomórfica chegou às américas e se tornou numa fonte imensa de criações imaginárias, lendárias e até por meio de folclore regional e local. Estatueta em argila cozida relacionada ao hermafroditismo, encontrada no Estado de Oaxaca, estando hoje  no México, num grande museu nacional, representa uma divindade hermafrodita, que segundo alguns pesquisadores, deve ter origem na antiga Atlântida, que irradiou para várias partes do mundo interessantes informações e conhecimentos. Antigas tribos mexicanas registraram que seus ascendentes vieram de um país chamado Aztlán, que traduzido seria Atlante.

Lendas, mas com fundamentos aceitáveis e até no campo científico, os tupi-guaranys, os caraíbas, os patagões e outros grupos têm em suas histórias e lendas referências aos atlantes. Os tupi-guaranys cultuavam três divindades especiais, que são o Sol, a Lua e o deus Rudá( do amor). O deus maior era Tupã, que era indefinido e invisível, mas, presente em toda a natureza. Entendiam que havia uma força exterior e complementar ao corpo que era imortal, existindo forças boas e más na natureza. As crenças dos tupi-guaranys se assemelhavam aos pensamentos religiosos romanos. Como eram assemelhadas, em especial em razão das grandes distâncias?

Da mesma forma que os demais ameríndios, os tupi-guaranys foram, também, dizimados, não só pelas doenças trazidas pelos brancos, como também pela ganância na busca de metais preciosos por todo o território que seria o Brasil e alguns países da América do Sul pelos famigerados ‘bandeirantes’, mamelucos que conheciam a região e sabia de todos os seus pontos que interessavam aos ‘ invasores’. Afogaram a cultura, o povo, a arte, mas muitas coisas restaram, inclusive e em especial a língua e a denominação de vários pontos do território sul-americano.

No México, a cultura antropomórfica dominou de maneira bastante forte, destacando o culto fálico, também altamente praticado em Roma, na Grécia e no Oriente. O mesmo seu deu no México pré-cortez. A divindade Xochipilli, deus do fogo e das florestas, Tlalloc, deus da água;  Ixecuina, deusa da sensualidade, Ixcuina, deusa da luxúria; Centreotl, deus do milho e da colheita e inúmeros deuses e deusas mostrando o corpo nu com o falo, os seis, as nádegas à mostra,  tornam o pantheon mexicano riquíssimo em divindades que dominaram o mundo antigo, hoje desaparecidos e esquecidos. Deuses nasceram, existiram e desapareceram conforme mudaram os conceitos e as necessidades dos povos e clãs e suas crenças.

São vários os panteões dos deuses antigos e esquecidos ao sabor do tempo e que ficaram sob a areia eterna das mudanças. Os orixás, entre os africanos, os deuses celtas, os deuses egípcios, os deuses havaianos, os deuses hindus, os deuses japoneses, os deuses dos incas, dos maias, dos astecas, os deuses nórdicos, os deuses persas, os deuses etruscos, as divindades dos ameríndios, dos europeus e do mundo antigo se perderam na linha eterna do duo tempo-espaço por um processo natural de substituição de conformidade com a evolução cultural de cada povo. Novos deuses surgiram e são cultuados dentro dos mesmos processos antigos, vez que o homem é o mesmo, apesar de dotado de mais cultura e conhecimento. Destaco os deuses olímpicos como exemplo, exigindo a criação de gerações nominando os deuses primordiais ( 1ª geração), os Titãs, 2ª geração e os olímpicos da 3ª geração, já com formas humanas e nos mesmos moldes dos que povoaram a imaginação humana ao sabor dos séculos.

OS CULTOS E OS DEUSES DOS ANTIGOS

A morte dos deuses.

O homem sempre precisou de complementos em sua vida física, espiritual, intelectual e geral. Inexiste ele só e isoladamente. Olhando assustado o meio onde vivia, nos idos tempos primeiros, e sentindo-se atacado pelos trovões, pelos ventos, pelas chuvas, pelo desconhecido, criou, com sua mente fantástica, companheiros que chamou de deuses, fadas madrinhas, duendes, bruxas, espíritos, fantasmas e outros artifícios, e ao invés de ter companheiros, acabou criando mais problemas. Imediatamente lançou mão de seu imaginário, mais uma vez, e criou lendas, crenças e por fim religiões.

Em especial a América Pré-Colombiana sempre foi e, em alguns aspectos continua sendo, rica em religiões. No mundo antigo destacam-se os egípcios, os persas, os orientais, asiáticos e os indianos não perdem dela. Neste estudo concentro-me mais na questão colombiana pela proximidade com o Brasil. A região onde hoje é a Argentina foi pródiga neste sentido. Os aborígenes eram considerados atrasados e perdidos na linha do tempo em especial quando comparados com outros povos.

O desenvolvimento e o avanço do homem, de forma intelectual, e nisto se arrasta a religiosa, foram se adaptando às necessidades que cada grupo sentia com relação à imortalidade, fator que assustava sempre o homem e ainda assusta. A criação de símbolos, imagens, totens, materializando suas crenças de forma explícita, tornou-se uma necessidade em concretizar suas dúvidas e certezas. O tetemismo, o falismo e a crença na sobrevivência do homem pelo espírito formaram o tripé necessário às suas complementações e necessidades, afastando tão quanto possível a morte de seus projetos. O totemismo ai está com suas imagens de Buda, de deuses místicos, de crucifixos e suásticas, numa concretização clara de seus remotos ascendentes representando o sangue de toda uma linhagem que se perde na linha do tempo. O falismo representando a procriação, a prole, o passado e o futuro, sem o que a vida não teria continuidade. A família é o amalgama humano da sociedade. Um antepassado morto tinha como obrigação continuar a zelar pelos familiares vivos, garantindo com isto sua existência espiritual pelos cultos familiares, depois comunitários.  E os vivos a garantia de proteção constante.

Uma entidade, uma fada, um espírito que deixasse de ser lembrado, cultuado, morria de forma concreta. Nossas lendas estão repletas de citações neste sentido. Todos os povos antigos rendiam homenagens especiais aos antepassados. Ainda assim é, guardadas as proporções definidas pelo tempo. O sangue que circula nas veias dos familiares vivos é o mesmo que circulou pelos clãs e por isto e sagrado.  O culto aos mortos sempre foi pomposo. Fustel de Coulange é imbatível neste estudo. Acompanhar um cadáver à sua última morada é primordial na família. Ainda japoneses, em especial, abastecem os túmulos dos mortos com iguarias que ele gostava em vida. Os egípcios assim agiam. Os altos dignatários e os faraós egípcios recebiam homenagens das mais altas expressões, religiosa e social. Altares eram erigidos dentro da casa da família e, o homem descendente mais velho, tinha o dever do culto que jamais poderia ter o fogo sagrado apagado. Os mortos jamais perdoariam tal falha significando o esquecimento de sua existência. Os vivos remanescentes temiam a vingança dos mortos. Assim ainda é, embora em proporções menores. Os tupi-guaranys, tanto quanto religiões mexicanas,  acreditavam que os espíritos conduziam para a tribo prêmios e castigos e por isto reverenciavam aos mortos numa tentativa de aproximação que poderiam gerar resultados positivos para toda a comunidade, ou o mal, se não bem conduzidos. Em todos os tempos os mortos foram e são considerados peças importantes no grande jogo da vida comunitária, social e religiosa.

As exéquias, ainda hoje, recitam orações em que se remete o espírito do corpo para seu lugar e que não retornem para causar problemas nem malefícios aos que ficaram e sim proteção. Casas assombradas refletem este tipo de sentimento e, mais que depressa, os vivos buscam exorcizar o local e livrá-lo da presença indesejável do morto. Cícero afirmava que os antigos latinos transformavam seus mortos em deuses, bons ou maus. Os cultos piedosos fortaleceram e ainda fortalecem os laços familiares. A fertilidade sempre foi guindada a altos pontos de consideração social e familiar, visto que, um ser com descendente, tem garantida sua lembrança e cultos e assim se manter ‘vivo’ pela eternidade. A esterilidade é abominada. Nos tempos de antanho, era comum ver-se a adoção de filhos homens como da família quando da esterilidade de seu chefe. Um lar sem filho, era considerado, inclusive na China, um lar amaldiçoado.

A IDEIA DA ETERNIDADE

O pesadelo humano.

Uma das maiores preocupações do homem, após o processo da Razão, era o seu destino após a morte. Considerando-se, sempre, um ser diferenciado entre os demais e se autocoroando como racional , era e continua sendo inconcebível que morto, o corpo se deterioraria e nada mais ficaria. Nos cemitérios tradicionais a frase “Revertere ad locum tuum ”( voltarás ao teu lugar) indica esta preocupação e já desde o nascimento da própria humanidade. Fez nascer com a ajuda da  Filosofia,  Literatura e da Religião respostas às suas dúvidas e as transformou em verdades que a própria Ciência busca comprovar.

Os silvícolas do norte, os aborígenes, maias, astecas, incas e um corolário enorme de nações e povos registram em suas histórias que os mortos, após a separação do corpo físico, se bons em vida, tinham lugar certo em verdes e coloridos campos, imensas florestas com caça abundante e clima perfeito, onde a própria natureza excluiu as ameaças do fogo, dos trovões, das chuvas, das intempéries, tornando o lugar um verdadeiro paraíso. Se maus, o destino era uma terra estéril, sem alimentos suficientes, calor condenatório e clima insuportável.  Na esteira do tempo e entre as culturas mais evoluídas, o paraíso era um lugar de gozo espiritual pleno, e o inferno, o local das trevas e do sofrimento pleno. Criou-se a ideia de que, o falecido, tentaria sob todas as formas voltar ao seu meio antes da morte e continuar manipulando os bens ali deixados. Era recomendado que a família se mudasse do local por pelo menos um ano, período no qual o desencarnado desistisse de ali permanecer, ou, se destruísse a casa e as plantações.

Interessante é que tais ideias não respeitaram fronteiras nem distâncias e, em todo o planeta, povos diversos professavam a mesma ideia e as mesmas qualidades atribuídas a seus mortos. Não houve demora em se criar explicações, ou tentativas, de como tratar da morte e suas consequências na vida humana, surgindo dai crendices fantasmagóricas e travestidas de verdades e até de testemunhos. A comunicação entre vivos e mortos tornou-se obsessão dando lugar a lendas e a existência de criaturas imateriais que viviam a perseguir e assustar os vivos como que se divertissem ou pelo simples prazer de fazê-lo ou ainda por vingança.

No passado, os contatos entre os espíritos e os vivos eram feitos através dos  pajés, dos curandeiros, pelos sacerdotes e hoje por plêiade de pessoas que ostentam, ou demonstram ostentar, certo poder nesta comunicação por um sistema mediúnico e capaz de ajudar o espírito na busca da luz de sua ‘salvação’ ou convencê-lo a deixar os vivos em paz, em especial os antigos familiares. Alam Kardec catalisou todo este estudo e produziu o “Livro dos Espíritos”, tentativa de conciliar as relações entre os vivos e os falecidos. A crença na imortalidade da chamada ‘alma’ humana se tornou, de ideias nascidas da vivência entre pessoas e um mundo imaterial em práticas organizadas que o mundo todo registra e conhece, e mais ainda, se vale dos conhecimentos espirituais para melhor conviver com os dos mundos.

O céu cristão é um local de paz, de muita harmonia, com anjos esvoaçando num meio perfeito, onde natureza e homem convivem de forma harmoniosa, tendo ao centro os espíritos mais evoluídos declarando hosanas a Deus, a Jesus e à trindade cristã. O céu budista promete o Nirvana, o do mundo bárbaro com Odin no centro prometia campos livres e caças em abundância. O céu oriental tem suas características e da mesma maneira, de forma invertida e dolorosa, o inferno está presente nascido e permanecendo deste os tempos imemoriais até à atualidade, com o demônio se postando como o controlador e o oposto ao bem, na célebre luta entre o bem e o mal, partes da própria personalidade e da história humana.

O tripé de tudo isto é a culpa, o perdão e o castigo, bases das religiões e formas de dominação do homem no cenário terrestre, gerando os dogmas que são meios de controle e definição das ações declaradas como da parte espiritual e eterna do homem. Dogmas são instituições que não admitem contestações ou explicações. São instituídos pelos altos escalões das igrejas, por seus mais elevados membros, cabendo ao seguidor apenas cumprir o que se determina.

 O DEPOIS DA VIDA

O pesadelo da morte e a divindade dos governantes.

A veneração e o respeito pelo corpo morto transcende a linha do tempo e se perde nas profundezas do passado humano. No mundo pré-colombiano e nas américas, a exemplo dos egípcios, com destaque, a passagem do mundo físico para o espiritual sempre foi alvo de ritos que variaram durante o tempo. Ainda hoje seguem linhas definidas e pouco alteráveis. A cremação, ou incineração, embora pareça violenta, é uma forma de purificação do corpo do morto e um túnel que liga a vida à morte. A cremação era e ainda é como que o desligamento, a emancipação  definitiva do corpo e do espírito.  As cinzas são objeto de elevado respeito e, nalguns povos, guardadas em casa e em altares próprios ou mesmo lançadas no campo, no mar e nos rios, como que devolvendo a matéria à sua origem natural. A cremação aconteceu praticamente em todas as regiões do planeta.

Houve um tempo e em várias partes do mundo, que, o indivíduo, ao ser sepultado, levava consigo os objetos de uso comum e constante, inclusive joias e bens materiais para que, ao voltar à vida, pudesse continuar a viver como que ainda não tivesse morrido. Era uma forma de ver a reencarnação como real embora fossem errôneas a forma e o fim de tais retornos. No Egito esta prática era comum, e nalgumas vezes envolvia a morte dos escravos julgados necessários ao falecido quando de seu retorno ou mesmo durante a vida espiritual, incluindo animais e  aqueles que se ofereciam para acompanhar o morto em sua nova vida.  Esta prática também era usada pelos ameríndios na era pré-colombiana. Esta prática legou à posteridade conhecimentos de alto valor sobre a morte e o sepultamento das pessoas de alta estirpe bem como também das classes menos favorecidas.

A mumificação aconteceu em diversos momentos da civilização humana. A preservação do corpo objetivava deixa-lo em condições para quando o espírito desejasse ou precisasse voltar, o corpo ali estaria à espera de tal reocupação.  Os Egípcios celebraram a presença do deus Osíris, que entendem viveu 3.100 anos antes de Cristo. Morto, ressuscitou três dias após, vivendo-os no inferno. De novo vivo, foi seguido por 12 apóstolos ou discípulos, usou a água como forma de batismo – purificação –  e realizou vários milagres. Entre os ameríndios a crença na transmigração era comum, onde espíritos humanos podiam se valer de corpos de outros animais, o mesmo acontecendo no uso das árvores, dos rios, lagos e até montanhas. Isto gerou inúmeras lendas que até hoje são repetidas pelo mundo.

Outro fator que impregnou o mundo humano de lendas e  costumes, foi o processo do antropomorfismo. No antigo Império Inca, os imperadores eram vistos como deuses encarnados representantes do Sol, o criador e mantenedor da vida na Terra. Toda lenda tem, em sua essência um fundo real. Na américa Pré-Histórica e outras regiões do mundo antigo, os fundadores das comunidades eram elevados à categoria divina e como divindades eram tratados em vida e após a morte. Na região do México encontramos várias lendas onde seus reis eram guindados à categoria divina e considerados como deuses, antes e depois da morte, desde que dotados de grande sabedoria e conhecimento das leis naturais.

Estranhamente encontramos no panteão dos deuses ameríndios e também entre os maias e astecas, personagens que surgiram sem explicações e assumiram poderes extraordinários entre os membros dos clãs, tornando-se deuses e grandes legisladores. Alguns vieram do mar, outros das florestas e outros, anda, das montanhas.  Na lista figuram homens, e a única citação feminina foi de Huytaca, uma beldade que, valendo-se de sua formosura, espalhou entre os habitantes do extenso vale de Cundinamarca, hoje  o centro de Colômbia, enorme confusão religiosa e social. Com estranhos poderes fez o rio Funza transbordar levando a morte e a destruição de grande parte da população indefesa e submissa aos poderes da invasora, que, da mesma forma como apareceu, nunca mais foi encontrada. Desde seu desaparecimento, surge Bochica, o filho de Zabe, o Sol, devolvendo a confiança e a prosperidade ao povo mediante reformas sociais e políticas e criando um dos mais evoluídos calendários numa enorme pedra. Por seus méritos, Bochica foi elevado à categoria de deus.

A morte é o fim de um ciclo e o início de outro e nesta ação, os homens do passado escolhiam entre seus pares os dotados de sabedoria, vontade civilizadora, compreensão das qualidades e defeitos humanos e, acima de tudo, conhecimento das leis naturais e locais, transformando a comunidade em pontos de bem-estar e vida prazerosa a todos os membros da comunidade ou do clã.

O MUNDO ANTIGO E OS RITOS

As adaptações na linha do tempo.

            Desde o limiar dos tempos em que o homem foi dotado da Razão, tomou conta de seu espírito o medo de tudo sem entender o próprio mundo e meio onde vivia, e  o caminho foi a adoção de ritos que minimizassem seu temor em relação a tudo o quanto o cercava. Nascia de forma simples, a princípio, o rito. Astecas arrancavam o coração da vítima, e ainda batendo, era colocado sobre o altar buscando aplacar a ira dos deuses ofendidos por alguma razão. Ainda hoje se percebe a presença de manchas resultantes do sangue ali derramado.

            No mundo egípcio, os ritos alcançaram níveis elevadíssimos e altamente simbólicos. Assim foi no ocidente do planeta com os astecas, em especial, onde os ritos chegaram aos sacrifícios humanos. Os Toltecas ofereciam cinco donzelas a cada ano às suas divindades. O objetivo era aplacar a ira dos deuses, mas o que realmente acontecia era uma sórdida manobra dos sacerdotes para manterem o poder sobre o clá e seus benefícios, ameaçando, de forma constante a comunidade que dirigiam e controlavam por meio da religiosidade. Cortez entendia que os sacrifícios humanos eram dispensáveis, e Montezuma os defendia, afirmando que através deles era possível trazer o povo sob controle e evitar revoltas.

            As formas diferentes de ver o assunto nos indicam de forma clara que, aos deuses astecas e outros clãs eram sacrificados jovens, escravos, prisioneiros e entendiam ser isto correto, embora os conquistadores classificassem isto como barbarismo. Os espanhóis, não bárbaros e cristãos, assassinaram centenas de nobres indígenas, jovens, crianças pela cobiça e o desejo de se apoderar dos tesouros que os conquistados possuíam e, em termos religiosos, afirmavam que seu Deus era representante da bondade, do amor, da tolerância, do perdão.

            Paradoxos?

            Após a cerimônia, vista e acompanhada por toda a comunidade, os sacerdotes recolhiam o sangue das vítimas em vasilhas douradas, em ouro maquetado, que era espargido sobre as imagens entalhadas em pedra e representando o deus maior e os secundários. Os corações, agora mortos, eram picado em fragmentos pequenos sobre uma pedra do altar chamada Tectal e também distribuídos pelos auxiliares da cerimônia, todos vestidos em cor vermelha, aos líderes comunitários e chefes do clã. Os corpos das oferendas eram picados em pequenos pedaços e distribuídos de forma cerimoniosa a todos os presentes, numa comunhão claramente comunitária. Aos deuses que não se compraziam com oferendas humanas ou animais eram oferecidos incensos,  perfumes e frutas da região.

            No Império Inca não era admitido o sacrifício humano. Os Toltecas e os Maias se abstiveram também dos sacrifícios humanos por longo tempo, embora haja vestígios de tais condutas em alguma época de calamidade pública.  O Sol era a divindade máxima  e símbolo do amor, e isto era levado a sério e os cultos eram feitos com frutas e incenso.

            Analisando-se tais condutas entre os ameríndios e também alguns povos mais antigos do oriente, não temos como não se referir à cerimônia do sangue entre os cristãos e até antes deles em seus cultos e cerimônias. O Cristianismo oficializou a morte como um caminho para a vida eterna, e o ‘ cordeiro de Deus que tira os pecados do mundo…” nos mostra isso de forma simbólica, mas, presente, onde o sangue, representado na ceia cristã através do vinho e o corpo, representando pelo pão, o trigo, nada mais é que a repetição do rito antigo  onde tudo era feito de forma materializada nas oferendas dos corpos humanos. A divisão do corpo em pedaços e oferecidos aos membros da comunidade é representada claramente pela hóstia, que na época do Cristo eram pequenos pedaços de pão.

            Mudam os tempos, mudam os deuses, assemelham-se os ritos e, em tese, praticamente nada mudou a não ser a forma de ação, a modernização e a adaptação dos ritos antigos a uma nova veste com novos panteões de deuses, novas religiões e novos sacerdotes.

O homem é o mesmo desde os primeiros raios de luz do planeta. As mudanças são representativas do tempo analisado. A essência humana, porém, é a mesma no perpassar dos séculos. O ajustamento é natural e o homem continua exatamente igual ao do início dos tempos. Ilusoriamente pensa-se que ele é diferente. Continua buscando seus complementos e, a cada dia, sente-se mais só à medida que passa a conhecer a imensidão do Universo.

            Tanabi – Janeiro/2018.

MORTE 2

Fundamentos:

  1. BAHLIS, Jorge. Religiões Ameríndias. Edição do autor. 1937. Porto Alegre.Rio Grande do Sul.

  2. COULANGES, Fustel. A cidade antiga. Edições diversas.

  3. DIVERSAS FONTES.

 

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